terça-feira, 14 de junho de 2011

Histórias Curtas - 2

_ Professor foi o senhor que quase atropelou um cachorro perto da minha casa?
_ Ahn??? Que cachorro? Guri!
_ Não era o senhor que estava dirigindo um caminhão de gás perto a minha casa e quase matou um cachorro?
_ Caminhão de gás? Que história é essa?

Já quase em paciência o aluno retoma.

_ Professor, o senhor não trabalha dirigindo caminhão de gás?
_ Não. hehehehehehe
_ O senhor trabalha de que, então?
_ Pode ser dando aulas pras crianças?...

domingo, 29 de maio de 2011

E a minha fama de analfabeto continua...

Era uma sexta feira e toda a rede municipal de ensino de Canoas havia parado para que os professores se reunissem para estudar. Assim foi a tônica de todo aquele dia. Durante o intervalo da tarde, por volta das 15hs, uma das professoras vira-se para mim e diz:
_ André, os meus alunos, outro dia, disseram que quando crescerem serão professores de Educação Física. Eu, então, disse, muito bem, muito legal. Daí eles disseram que para ser professor de Educação Física não precisariam saber ler nem escrever.

(Os alunos em questão estão no segundo ano da educação básica, em média tem 7 anos e estão passando pelo processo de alfabetização)

Depois de rirmos um pouco a professora concluiu:
_ Mas André, eu disse pra eles que para ser professor de Educação Física tem que saber ler e escrever, mas eles retrucaram, dizendo que professor de Educação Física só dá aulas na quadra e que tu  não sabes dar aulas dentro da sala.
Rimos mais um pouco e a professora continuou:
_ E ainda sobrou pra mim. Disseram que eu só sei dar aulas dentro da sala, que eu não sei dar aulas na quadra. Eu disse que não, que o professor André sabe dar aulas dentro da sala e que, se eu quiser, posso preparar uma aula na quadra. Mas acho que eles não se convenceram muito.
Passados alguns dias entrei na sala da tal turma e resolvi tirar satisfação com os alunos que pensavam que eu era analfabeto. Onde já se viu?? Eu, praticamente um Doutor, levar fama de analfabeto!!!! Não, isso não poderia ficar barato.
Adentrei o recinto e logo perguntei!

_ Quem foi que disse pra professora Andressa que eu não sei ler nem escrever?
Ficaram calados por um tempo. Refiz a pergunta.
_ Anda gente! Quem foi que disse que professor de Educação Física não precisa saber ler, nem escrever?
_ Ahhhhh, fui eu e o Charles!!!
_ De onde vocês tiraram isso?
_ Ah professor, pra dar aula e Educação Física não precisa saber ler nem escrever. É só levar as crianças pra quadra.
_ Não tem nada disso! Respondi. E como autoridade academica que passou por 4.5 anos na faculdade, 2 anos no mestrado e, por enquanto 3, no doutorado, continuei.
_ Só pra vocês saberem, eu sei ler e escrever. _ Disse em tom de soberba.

As crianças não convictas queriam provas! Naquele momento a conversa já tinha atingido toda turma e, mesmo os mais quietos, que nunca ousariam duvidar de um professor, já estavam eriçados querendo que eu provasse minhas habilidades linguísticas. Foi então que corri os olhos pela sala para encontrar algo que pudesse ser lido. Deveria ser algo  grande e exposto a todos, para que pudessem atestar a veracidade da minha competência de leitura. Ao fundo da sala avistei um alfabeto que apresentava uma palavra iniciada com a letra correspondente.
Abaixo, eis um trecho do tal alfabeto...









Após avistar o alfabeto e totalmente pronto para minha redenção. Disse:
_ Se vocês querem que eu leia, lerei... _ E assim, o fiz!

_ Avião, Bicicleta, Cão, Dado...
Antes mesmo que chegasse na palavra "Elefante", fui interrompido com gritos e tumulto geral!!!
_ Não, não, não vale, não vale, tu tá roubando!!!!
_ O que foi?
_ Não vale professor!
Toda a turma estava de pé. Alguns em tom de acusação, outros, de riso e deboche.
_ Ah, viu só como não sabe, tu tá olhando as figuras!!!! _ Pontuou, um aluno.
Olhei para a turma meio que rindo, ao mesmo tempo em que estava preocupado, afinal, continuava analfabeto. Foi então que um aluno me entregou uma folhinha com um texto escrito por ele mesmo.
_ Lê isso aqui, professor.
Olhei para aquela folha e comecei a ler. Era um textinho que ele havia escrito em homenagem ao dia das mães. Li. Mas a letra do guri não era das melhores e acabei gaguejando. Uma das palavras, inclusive, li errado, porque não entendi a letra. Nesse momento, o guri, maldito, me corrigiu!!!!
Bom, pelo menos, não passo mais por analfabeto. Mas, na cabeça daquelas crianças, pra exímio leitor, preciso estudar muito.

PS: Na semana passada, voltei à sala para fotografar o alfabeto. As crianças olharam curiosas. Depois de sair, um dos alunos vira-se para a professora e pergunta.
_ Porque o professor estava tirando foto do alfabeto?
_ Não sei. _ Respondeu a professora.
_ Deve ser pra ele estudar em casa!!!!
EU MEREÇO!!!

domingo, 1 de maio de 2011

Um ano de Blog!!!

Então, pessoal! Preparei esse post em comemoração ao primeiro ano do Blog. A ideia é fazer um balanço geral do que foi esse período, retomar alguns posts, apontar alguns dados estatísticos que só o mediador tem acesso, assim como dizer os motivos que permitiram a manutenção desse espaço.

Com o incentivo de alguns alunos da FEEVALE o blog foi criado com a proposta de registrar e compartilhar coisas cotidianas do meu fazer profissional. Serviria também como espaço pedagógico de pertença, onde os alunos do ensino superior pudessem se reconhecer.
Atualmente o Blog possui 24 postagens e duas páginas (Início e Publicações).
O conteúdo do Blog recebeu mais de 6232 visitas e os posts campeões de visitação foram:

1 - Lea T com 2408 visitas. Creio que esse número expressivo se deu pela visibilidade que a modelo brasileira ganhou nos últimos meses. Em Janeiro de 2011 houve um grande número de acessos a este post, tornando-se o mês com maior número de visitas do blog - 2408.

2 - Noções de etiqueta com 117 acesso.

3 - Dia dos professores com 93 acessos.

Apesar desses três serem os textos mais lidos, elejo o"Pérolas dos alunos" como meu post favorito. Fica aí a dica caso ainda não tenham acessado.

Hoje, passado um ano da publicação do primeiro post, penso nas coisas que permitiram a manutenção desse espaço. Obviamente que o retorno positivo das pessoas que lêem o Blog é super significativo e serve como grande incentivo à continuidade da escrita. Isso se reflete também no grande número de acesso das páginas, digo ser grande por ser bem maior que minhas pretensões iniciais... Além disso, fui percebendo que o registro das histórias cotidianas atingem a dimensão do prazer. Assim, escrever aqui se tornou, em alguns momentos,  divertido; em outros uma necessidade gerada pela minhas indignações e posicionamentos políticos... enfim, seja qual for o motivo, me faz bem...
Assim sendo, sigo escrevendo...

Espero que esse ano que se inicia seja repleto de boas histórias pra contar...
Um abraço a todos e a todas

Soro André

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Histórias curtas 1

Estava sentado no banco, corrigindo uns textos num desses poucos horários de folga, quando uma aluna se aproxima, senta-se no meu colo e diz:
_ Professor, sabe de uma coisa? Estou gostando de um guri...
A aluna tem 10 anos.
_ Hummmm, e quem é o felizardo, Danielle?
_ O Joãozinho.
_ Até hoje!!! Desde o ano passado eu já ouvia essa história!!!
_ È, mas ele também gosta de mim.
_ Ahhh, e agora? Como vocês vão fazer? Vão namorar?
Irritada, a aluna levanta-se rapidamente do meu colo, dizendo:
_ Ai professor, como tu é infantil!!!
Saiu em direção à sala de aula sem, sequer, olhar pra trás.

sábado, 9 de abril de 2011

Pistórius e a Neo Eugenia





Nesta última semana a correria intensificou-se. Além das demandas habituais recebi um convite da Silvana (minha orientadora do doutorado) para escrevermos um texto juntos. Até onde sei, ela já estava com o artigo praticamente pronto, quando o PC quebrou. Com a corda no pescoço saiu à busca de algum texto que pudesse aproveitar para encaminhar para a publicação. Fuçando os arquivos encontrou minha proposta inicial de tese e, então, entrou em contato para trabalharmos juntos.
Topei a empreitada que tinha dez dia de prazo.
Pensei... barbada! Conheço a discussão e 10 dias é mais do que o suficiente!
A ideia era relacionarmos os processos de investimento tecnológico no corpo com os pressupostos da Eugenia (ciência gestada no século XIX que tinha por fim promover a melhoria da espécie humana). O argumento central utilizaria elementos da "cultura fitness" e do esporte de alto rendimento para dizer que, contemporaneamente, presenciamos uma Neo Eugenia.
Passados dois dias após termos fechado a proposta do texto, Silvana me liga novamente e diz:
_ André, nosso prazo foi reduzido... temos que entregar na terça!
Ou seja, dos 8 dias, perdemos 4! Então, prontamente disse:
_ Ok, se é esse o prazo, vamos encaminhar o texto com o prazo que temos.
Obviamente, que depois de desligar o telefone eu pensei... Fu...
Entre uma aula e outra mergulhei na escrita e, o que em princípio parecia ser barbada, se tornou bastante trabalhoso.
Apropriado dos elementos teóricos fui à busca de atletas que me ajudassem a pensar essa discussão. Meus alunos da turma de sábado já haviam me dado uma pista sobre um tal chinês, atleta de basquete, Yao Ming. A partir de então, cheguei a aspectos dos corpos de Michael Phelps (nadador norte americano) e Tiago Pereira (nadador brasileiro). Imerso em imagens e textos, sobre atletas espetaculares, encontrei Oscar Pistórius, atleta sul africano que teve suas pernas amputadas aos onze meses de idade. Pistórius seria perfeito! Seu corpo, suas próteses, seu desempenho esportivo era tudo o que eu precisava para amarrar a discussão.
Ler sobre sua trajetória, acessar suas imagens e assistir a seus vídeos abriu, diante de mim uma outra sensibilidade que, infelizmente, o formato de texto exigido para publicação não conseguiria alcançar.
Meu desejo no momento de escrita era possibilitar aos leitores assistirem a vídeos, verem imagens, analisarem os formatos de suas próteses... mas a tinta impressa no papel não me permitiria isso...
Neste sentido, resolvi construir este post, e utilizar os recursos que blog me disponibiliza para tentar dimensionar imagem de Oscar Pistórius.



"Assim é Oscar Pistorius, atleta paraolímpico que aos onze meses de idade teve suas pernas amputadas. Seu corpo, então, tornou-se alvo de investimentos e, na articulação entre várias áreas do saber, deu origem a um ser híbrido de carne e fibras de carbono. Aos moldes da Eugenia do século XIX, o atleta sul africano jamais se tornaria um emblema de “Homem puro-sangue”, sobretudo porque nasceu marcado por uma má formação congênita. Entretanto, sob os imperativos da neo Eugenia, sua mazela foi extirpada e sua “deficiência” suplantada pela tecnociência. Pistorius, neste texto é o emblema da neo Eugenia ao potencializar seu corpo para além de suas condições “puramente” humanas."
(...)
"Nas práticas neo eugênicas da contemporaneidade, o corpo de Pistorius que, aos onze meses de idade, vislumbrava a quase imobilidade, potencializa-se, acopla dispositivos tecnológicos e emancipa-se para uma condição híbrida. Aos nossos olhos, é o emblema do processo de melhoria da espécie." (Goellner e Silva - no prelo)




quinta-feira, 31 de março de 2011

Barriga de tanquinho

      O sino havia acabado de soar e eu já estava na porta para a troca de horário com a professora da "Hora do Conto". Entrei na sala quando as crianças se acalmaram e disse:
_ Boa tarde!
_ Boa tarde - responderam em coro.
      Sem maiores delongas passei a explicar como ia acontecer a aula. Peguei um giz e fui para o quadro.
      Naquele dia eu tinha colocado uma camisa que as crianças não conheciam bem e logo ouvi alguns comentários. Na verdade, não gosto muito daquela camisa, me faz sentir calor, então prefiro não usar. Na falta de outra roupa limpa no roupeiro, peguei aquela mesmo.
      Enfim, percebi o estranhamento das crianças, mas não dei atenção, segui com os apontamentos no quadro.
       De súbito, quando havia acabado de me virar para a turma, um aluno disse:
_ Bahhh, professor, tu tá tanquinho, ein!!!
      Como o comentário me favorecia, não repreendi, segui a aula com uma leve sensação de satisfação.
      Explicadas as atividades, organizei as crianças e fomos para a quadra. Peguei os materiais, organizei os grupos e a aula seguia normalmente. Mais tarde, quando olhava atendo para a atividade desenvolvida por um grupo de gurias, o mesmo aluno que se referiu a mim como "barriga de tanquinho" se aproximou sorrateiro...
      Senti minha camisa subir. Olhei para baixo e o guri havia levantado minha roupa até o meio da barriga. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se pronunciou...
_ BÂÂÂÂÂÂÂÂÂÂHHHHHHH, professor, tu NÃO tá tanquinho...
Sem pestanejar respondi!!!
_ Ahhhh, guriiiii, tu não tem nada pra fazer, não? Vai brincar!

quinta-feira, 17 de março de 2011

De volta ao trabalho...

Logo após o Carnaval voltei efetivamente ao trabalho... as aulas no ensino superior já haviam começado desde fins de Fevereiro, mas as primeiras aulas são mais tranquilas e não exigem tanto do professor. Além disso,  na educação básica, apesar de também já estar na escola desde fins de Fevereiro, na primeira semana de aula não estive de fato em aulas com as crianças. A coordenação pedagógica entende que é positivo, nos primeiros dias, as crianças passarem mais tempo as professoras regentes de turma, criando assim maior identificação.

 Assim sendo, passado o Carnaval "voltei" às aulas...
Quarta à tarde estivemos em reunião pedagógica na escola, depois fui para Novo Hamburgo substituir uma professora na Faculdade. Na quinta à tarde tive minhas primeiras aulas com as crianças e logo após, segui para Novo Hamburgo para novamente substituir a professora. Sexta feira, aula com as crianças à tarde e logo após, Novo Hamburgo. Após o término da aula, voltei, como de costume, para Porto Alegre, pegando mais uma hora de trânsito. Cheguei podre, cansado e com dor de cabeça... Comi algo e apaguei.

Acordei no outro dia,  meio retardado e às 8hs da madrugada estava me dirigindo para escola... foi sábado letivo e passei com as crianças e professores toda manhã. Da escola, novamente fui pra Novo Hamburgo, orientei uma aluna as 13hs (mas me atrasei) e as 14hs estava novamente em aula.
Tudo corria bem, dei a primeira metade da aula na boa (digo, na técnica) e logo passamos para o segundo tema... passei um fragmento de um filme.
Sentado junto aos alunos assistindo ao filme, dei umas duas pescadas com os olhos abertos.
Terminado o trecho,  partimos para a  discussão. A aula teria mais 15 ou 20 min, no máximo. Dirigi-me aos alunos e perguntei:

_ E ai, meus amores, digam pra mim o que é possível pensar a partir deste fragmento de filme? Que corpos habitavam a Idade Média?
Os alunos disseram coisas e fui tomando nota no quadro. Após as falas dos alunos passei a amarrá-las com o conteúdo a ser socializado. Foi então que a coisa começou a ficar feia...

"Mal e porcamente" respondi aos apontamentos de um aluno, depois, ao entrar nas especificidades do conteúdo, fui vendo a aula se perder...
Genteeeeeeeeeeeeeee eu esquecia tudoooooooooooo!!! Eu não me lembrava o nome do regime político, da ordem religiosa e outras tantas especificidades daquele período histórico. E para aqueles que tem dúvida, SIM!!!! EU PREPAREI A AULA COMO SEMPRE FAÇO!!!!

Em meio a um branco e outro os alunos me lembravam das coisas. A cada auxilio eu respondia, obrigado meu filho e ria... Foi então que mais um branco me ocorreu. Parei a aula. Olhei para aquelas carinhas ávidas por saber e fiz uma pausa dramática.

Eu estava no meio de uma frase, no meio de uma assunto... os alunos estavam atentos... A pausa terminou quando disse:

Meus amores, um abraço pra vocês, a gente se vê no sábado que vem...
Silêncio na sala por um instante.

_ Mas o que é isso professor, o que foi?
_ Gurizada, não tá rolando a aula... semana que vem retomamos o assunto e em 15 min matamos o conteúdo,  ok? Beijos e até sábado.

Caminhei em direção a minha mesa meio que rindo, porque chorar não era cabível naquela situação. Alguns alunos já saiam porta afora, outros ainda atônitos, olhavam para mim sem acreditar direito no que estavam presenciando...

Ao sair da sala, fechei a porta, me despedi das criaturas que ainda estavam por ali, virei meu rosto para a esquerda e em minha direção caminhava um outro aluno... impulsivamente disse:

_ Ihhhh, agora aquele guri, ainda vai ter orientação de TCC comigo... coitado!!!
Saí de Novo Hamburgo às 17:37.

Para o próximo sábado vou me puxar pra ver se consigo me redimir.