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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Histórias curtas... já perdi as contas!

Depois de organizar as crianças para irmos para o pátio, a primeira aluna da fila, que estava de mãos dadas comigo, inicia uma conversa.
_ Profiii, sabe a beltraninha?
_ Hum, o que tem. _ Cabe destacar que a beltraninha estava logo atrás da guria que falava.
_ Ela disse que é lés - bi -ca!
_ Oi?! [#pego de surpresa# cara na poeira#]
_ A beltraninha disse que é lés - bi - ca!
_ Tá, mas e o que tem?
_ Nada... mas eu não sei o que é lésbica.
_ E tu beltraninha, sabe o que é?
_ Não. Eu escutei o meu primo falando. Ele é grande...
_ Hum... então tá.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Em homenagem ao dia da(o) Pedagoga(o)...

Segunda feira, 20-05, dia da(o) Pedagoga(o), um aluno [6 anos], no final da aula, vira-se pra mim, aponta para  a salinha onde guardo os materiais da Educação Física e pergunta:
_ Sor, é verdade que tem um esqueleto ali?
_ Sim, é verdade! [Trata-se de um esqueleto didático que estava rolando pela escola e que resolvemos guardar na salinha dos materiais.]
_ De quem é, sor?
_ De uma criança - Respondi com sorriso maquiavélico.
_ O que houve com ele? 
_ É uma história muito macabra, outro dia te conto.
_ A cabra mordeu ele e ele morreu?
_ Nãaaaao, a história é macabra!! _ Respondi pausadamente como estratégia pedagógica para o guri perceber que tratava-se de uma história sinistra e amedrontadora. Ávido para saber se a criatura tinha captado a mensagem, virei-me pra criança que já dava sequência na conversa.
_ Hummmmmm, não é um cabra nada! Nem tem chifres, só tem cabeça!
Peguei a criança pela mão e voltamos para a sala.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Eve eve eve...

Em 25-04-2013, a Educação no município de Canoas parou por pagamento do piso salarial, aumento de salário, ajustes no plano de carreira, valorização do professor, redução da jornada de trabalho (respeitando a carga horária de planejamento) e melhoria da infraestrura. A paralisação que esteve vinculada à Semana Nacional da Educação, organizada pela CNTE, contou com dois dias de panfletagem (23 e 24 de abril) em frente às escolas e em algumas estações do Trensurb, em Canoas. 
Pois bem, diante de toda essa mobilização, as crianças ficaram inquietas, algumas em dúvida. Como bom professor que sou, resolvi colocar alguns pontos da mobilização em discussão.
Em aula com os alunos de 6 aninhos, perguntei:
_ Vocês sabem o que é greve? _ Duas crianças levantaram o bracinho.
_ É quando não tem aula.
_ E tu, meu anjo, sabe o que é?
_ É quando a  gente fica em casa brincando...
_ Hum... não é bem assim... Greve é quando o professor diz que não vai dar aula para as crianças. _ As crianças me olharam com certo espanto e estranhamento.
_ E vocês sabem por que não vou dar aulas?
_ Nãaaaaao. _ Responderam em coro, com carinhas ávidas pela resposta.
_ É porque o prefeito não está se comportando! _ As crianças ficaram com a cara feito um pandeiro!
_ Mas sor, o prefeito não se comportou?  _ Perguntou uma guriazinha, rompendo o silêncio.
_ Não! Ele não tá pagando o que o professor tem que receber pra dar aula pra vocês... Nem o prof, nem a professora Cerani, nem a professora Denise. Por isso... eve eve eve, vamo fazer greve!

O tempo da aula já havia terminado e a professora Roselaine adentrava à sala para a troca de períodos.

http://www.diariodecanoas.com.br/canoas/451037/professores-fazem-protesto-pelas-ruas-do-centro-de-canoas.html







quarta-feira, 10 de abril de 2013

No meio da aula, de repende fui interpelado...

As crianças em geral tem uma peculiaridade (na verdade nem tão peculiar assim, afinal, tenho alguns tantos alunos adultos que fazem a mesma coisa...), são capazes de, facilmente, olhar para os professores com cara de que estão prestando atenção e fazer um comentário completamente fora daquilo está sendo explicado... 
Assim foi o que aconteceu numa das minhas aulas com as criancinhas de 6 anos...



_ Professor André!!! - Chamou uma guriazinha fofa no meio da explicação de uma brincadeira.
_ Oi meu amor... - Olhei atento, suspeitando ser alguma dúvida.
_ Sabia que o meu pai me abandonou??? #cara na poeira#
Após alguns segundos sem saber o que dizer, brilhantemente, interagi com a menina.
_ Ahnnn, e agora, meu anjo? _ Perguntei com voz doce.
_ Agora que eu não tenho pai. 
Novamente sem saber o que fazer, respondi.
_ Hummmm, então vamos prestar atenção aqui no quadro, senão, depois ninguém vai saber brincar lá no pátio...



Outro dia, em outra turma de crianças de 6 anos, adentrei a sala e coloquei os alunos pra dentro. Era segunda feira e nas segundas as criaturas chegam cheias de novidades querendo socializar...
Logo depois de colocá-los sentados e organizados nas classes um aluno levanta a mão e já sai falando...
_ Professor, sabia que o meu primo fulaninho queria matar minha tia com uma faca? #cara na poeira again# E dessa vez não fui só eu. As crianças se impressionaram, uma menina chamou até por "Nossa Senhora"  e tapou com a mão a boca aberta de espanto.
Querendo saber um pouco mais sobre aquela história, peguntei.
_ Capaz, filho..., mas porque? 
_ Ele dizia que queria isso e aquilo e ela disse que não, daí ele quis matar ela.
_ Ahhh, meu Jesus Cristo, vamos parar com essa conversa e começar a aula!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Professor, me ajuda com as continhas de dividir?

Há aproximadamente duas semanas, a secretaria de educação do município de Canoas havia agendado um programa de recuperação em rede para as crianças que estivessem com alguma dificuldade no processo de ensino-aprendizagem. Assim, os alunos que estivem bem iriam embora pra casa às 16h. Os demais ficariam na escola fazendo atividades de reforço.
Enfim, era sexta feira e eu fui solicitado pela equipe diretiva a acompanhar um dos 4ºs anos com a recuperação. Fiquei apreensivo, mas logo fui acalmado pela supervisora.
_ Não te preocupes, André, a Denise deixou atividades em uma folhinha para as crianças. Elas sabem o que fazer.
Soou o sinal, passei na sala da professora Elisa, peguei as folhinhas e distribui para as crianças.
De fato as criaturas estavam bem autônomas, além disso, o conteúdo era tranquilo... tinham frases para serem feitas, uns numerais para escrever por extenso... enfim, coisas que eu saberia ensinar para as crianças.
Entre uma olhadela e outra pelos trabalhinhos dos alunos, ouvi uma menina chamando:
_ Professor, me ajuda com as continhas de dividir?
Dirigi-me para a mesa dos professores e convidei a aluna para me mostrar qual era sua dúvida. De modo pontual me fez uma pergunta simples que respondi afirmativamente. A menina voltou para sua cadeira, sentou-se e terminou o exercício. Logo depois uma outra aluna também me solicita ajuda com as continhas. Do mesmo modo coloquei a guria sentada do meu lado. Peguei o papel e havia uma conta armada: 1.064/8. Jesus Cristo, pensei. Peguei um rascunho e uma caneta e fui fazer a tal da conta. Graças a Deus, logo cheguei ao resultado... Ufa, primeiro aperto resolvido, eu sabia fazer a conta. Eis que surge o segundo... Como fazer a criatura entender o que eu fiz? Obviamente não bastava a criança me ver fazendo a conta pra ela aprender.
Mais ligeiro que um gato, perguntei à aluna.
_ Fulana, como foi que a prof. te ensinou fazer?
_ Ahhh, sor, não sei...
_ Como é que foi Carlito?
_ É assim, sor, tu pega esse 8 aqui e bota debaixo do 10 (recapitulando, a conta é 1.064/8)
_ Hummm??? mas dez dividido por oito sobra 2 e não oito!!!
_ Ahhh, sor, sei não... foi assim que a sora ensinou.
Fiquei com a cara na poeira!  Eu só pensava... e agora? E a minha reputação perante às crianças? Além de analfabeto, como pensavam as crianças do segundo ano, estaria fadado à fama de professor que não sabe fazer continhas de dividir!!!
Coloquei-me a pensar... Deus do céu, como que eu faço? Quando de repente, uma luz se fez e eu disse...
_ Guria, faz assim. Pega esse papel de rascunho e faz 10 bolinhas.
_ Tá... já fiz...
_ Por quanto tu tens que dividir essas 10 bolinhas?
_ Por 8, sor. 
_ Então tu marca com um x em cada bolinha e vai formando grupinhos de 8 bolinhas com x.
_ ...
_ Pronto?
_ Sim. Deu um grupinho.
_ Isso, guria! Quantas bolinhas sobraram?
_ 2.
_ Então bota aqui debaixo do dez esse 2...
E assim, quase intuitivamente propus uma didática para ensinar continhas de dividir. Foi inevitável o orgulho que senti de mim mesmo... praticamente um gênio da matemática.
E assim fui ensinando as crianças que iam se amontoando ao redor da minha mesa solicitando auxílio.
Pouco tempo depois sou novamente surpreendido com outro aluno.
_ Sor, olha essa continha aqui...
Era uma coisa enorme, tipo 82000/15.
_ Eu vou ter que fazer 82 bolinhas e depois fazer grupinhos de 15 até dar 82?
Naquele momento o sentimento de orgulho veio abaixo e eu pensava. Não pode ser... deve ter outro modo de fazer isso... sem uma resposta rápida e já sem imaginação pra tentar inventar uma desculpa, disse:
_ Cara, assim, segunda feira tu pergunta pra professora Denise se tem um jeito mais fácil. Hoje tu faz as bolinhas e vê o que dá.
A coitada da criança voltou-se pra sua mesa. Antes de se sentar, o sinal de término da aula soou. Que alívio!!!
Dois dias depois na sala dos professores...
_ Professora Denise, quase morri pra ensinar as crianças fazerem continhas de dividir! Credo que coisa mais difícil!!!
_ hahahahahaha - riu a maldita - E como tu fez, professor André?
_ Mandei fazer bolinhas... _ Neste momento a mulher olha pra mim com cara de pena e diz:
_ Professor André... a gente não pede pra fazer bolinha há anos!!! _ Como se não bastasse, outra professora linguaruda emendou com sorriso nos lábios:
_ Ehhhh, a gente incentiva o uso da tabuada!
_ Ahhhh, pois é! Agora tu vai ter dois trabalhos: tirar a bobagem que eu fiz da cabeça das crianças e ensinar as continhas pras coitadas!!! Agora deixa eu ir pra minha aula que não é de matemática!!!

sábado, 27 de outubro de 2012

"Professor o que é quenga mesmo?"

Semana passada, segunda feira, cheguei na sala de um dos 3ºs anos e logo na porta fui informado pela turma.
_ Professor, a "Vip" não veio! - A Vip é uma aluna que, quando o prefeito foi visitar a escola para distribuir materiais escolares e uniformes, sentou-se na primeira fila, área Vip do evento.
_ Capaz!!! A Priscila não veio? _ Perguntei adentrando a sala. Antes de chegar à mesa dos profes, um aluno dirige-se a mim e pergunta:
_ Professor, quando uma vip não vem, vem as quengas? #caranapoeira#
_ Que isso, guri? De onde tirou isso?
_ Professor, aquelas três ali podem ser as quengas... Sugeriu o aluno, apontando três coleguinhas que sentavam-se no fundo da sala.
Sem muita reação e achando graça naquela conversa, fui chamado novamente pelo aluno.
_ Professor, vem aqui... _ Abaixei-me na mesinha da criança ansioso por ouvir mais daquela conversa.
_ Sabe a velha fofoqueira? (Dona Dorotéia, personagem de Gabriela)
_ Sei.
_ Ela disse que não queria quenga na casa dela.
_ Mas como, se ela é quenga também? _ Ponderei.
_ Era! Era quenga!
Percebendo que o aluno não sabia o significado da palavra, mas, suspeitando que tinha ciência da carga negativa que carrega, perguntei valendo-me de minhas habilidades pedagógicas...
_ Mas cara, diz pra mim... ser quenga é bom? _ O guri olha para o coleguinha sentado ao seu lado e, balançando a cabeça negativamente, responde em tom de obviedade.
_ Não sei... nunca fui quenga!!!
#caranapoeiraagain#
_ Ahhhh, tá bom... vamos nos organizar!!! Olhem aqui para o quadro que eu vou explicar a brincadeira!
PS: Minutos depois o aluno retoma. "Professor o que é quenga mesmo?" Surpreendido com a pergunta, e disposto a não usar mais os meus dotes de professor, respondi rindo... "Ah, guri!!! Vai perguntar pro teu pai!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

"... o que gente vai fazer nas aulas de Educação Físca?"

Reinício das aulas e eu estava no meu primeiro encontro com as crianças do primeiro ano. Em média os alunos têm 6 anos e  vêm da Educação Infantil. Pra eles tudo é novidade. Não conhecem a escola, os professores nem a organização do espaço pedagógico.
Pois então... estávamos no nosso primeiro encontro...
Recebi os alunos na porta da sala e, já na entrada, me olharam desconfiados. Sentaram-se e eu pedi silêncio. Apresentei-me como professor André, o professor de Educação Física! As crianças me olhavam impressionadas!
Já fazendo os encaminhamentos da aula perguntei:
_ Vocês sabem o que a gente vai fazer nas aulas de Educação Física? _ Alguns disseram não, outros somente fizeram um gesto em negativa com a cabeça, quando de repente, um aluno levanta o braço e sai dizendo!
_  Eu sei professor!! A gente vai aprender inglês!!! _ Ri e respondi:
_ Não. Inglês vocês vão aprender nas aulas de inglês, oras!
_ A gente vai fazer cambalhota! _ Arriscou outra criança!
_ Isso!!! Vamos fazer cambalhota!! O que mais?
_ Brincadeiras!!
_ Isso!! O que mais?
_ A gente vai brincar no pátio, com bola!!
_ Muito bem!!
Fiquei feliz, as crianças já conseguiam localizar a disciplina e o que iriamos fazer durante as aulas.
Mediante o retorno positivo que dei a alguns alunos, todos começaram a falar de uma só vez. Posicionei-me e solicitei silêncio.
Quando já estavam se acalmando, um guri vira-se pra mim e diz:
_ Professor eu sei de que a gente vai brincar! _ Sem esperar que eu pontuasse, emendou:
_ A gente vai brincar de médico!
Arregalei os olhos de susto, afinal, não estava esperando por aquilo. Junto ao susto comecei a rir discretamente e logo saí em resposta:
_ O que é isso guri!! De onde tu tirou isso, Jesus Cristo!!! Ave Maria!!! Não tem nada disso de brincar de médico.
Balbuciei mais um "Ave Maria" e tentei não dar importância pra aquilo.
Enfim, falei mais algumas coisas com as crianças meio rindo, mas não me lembro do teor, afinal, eu só queria enrolar os alunos para que eles esquecessem aquela história... Continuei com um sorriso de canto de boca. Obviamente as criaturas começaram a rir.
_ O que foi que vocês estão rindo, Jesus? _ Perguntei.
_ É que o senhor ta rindo do Angel porque ele disse brincar de médico.
_ Ahhhh, pára guri!!! Esquece isso senão amanhã vai ter pai e mãe aqui na porta querendo saber que história é essa!!!

Enfim, na segunda tentativa fui mais efetivo e consegui enrolar as crianças pra tirar aquela história de brincar de médico da cabeça. Que eu saiba, até hoje, os pais não vieram reclamar de nada.
E assim mais um semestre se inicia...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Histórias Curtas - 7

Hoje, um aluno chega esbaforido e gritando:
_ Professor, num é que é bule quando chamam a gente de filho da puta?
Pra não começar a rir na frente da criança, virei de costas depois de encaminhá-la novamente pra brincadeira.

Há uns dois meses o mesmo guri grita para mim numa distância de uns 5 metros:
_ Professor, a Stéphane chamou a gente de lambisgóios!!!!
Mordendo a língua pra não rir, dirijo-me à aluna:
_ Stéphane... não chame teus coleguinhas de apelido!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Boiola quatro bolas?!?!

Hoje, debaixo de um calor escaldante, estava em aula com as crianças. Ficamos por volta da sombra fazendo umas brincadeiras quando dois alunos começaram a discutir. De longe acompanhava toda a função, mas não quis me intrometer. De repente, um dos alunos começa a correr atrás do outro chamando o guri de Bicha.
Não tardou muito e um dos alunos começou a gritar:
_ Professoooooooooooor!!! Professoooooor, o fulano quer me bater.
_ Claro, professor ele tava me chamando de boiola quatro bolas!
_ Mas tu me chamou de bicha primeiro!!!
Chamei as crianças para conversar, sentei-me no banco e coloquei um de um lado e outro de outro antes de começar o interrogatório.
_ Ei, porque vocês estão brigando?
_ Ele me chamou de boiola quatro bolas.
_ Quatro bolas?!!? _ Perguntei surpreso.
_ Sim – respondeu o aluno.
_ Tah, mas não estou entendendo. O que é boiola?
Neste instante, um dos alunos sai fugido. E passo a pergunta para o que ficou do meu lado.
_ É um cara que fica com outro cara!
_ Hummmm. E isso é ruim?
_ É porque todo mundo fica chamando!!!
_ Tah! E esse negócio de quatro bolas? O que é isso?
_ Sabe as bolinhas que os homens têm?
_ Sim! O que tem?
_ Ele fala que eu tenho quatro. E quem tem quatro vai toda hora ao banheiro fazer o número 1.
Ouvindo isso já esbocei um sorriso e redobrei minha atenção.
_ Ah, então quanto mais bolas se tem, mais xixi se faz?
_ Aham.
_ Mas tu tem quantas bolas?
_ Duas.
_ Hummmm... E tu vai muito ao banheiro?
_ Não.
_ Porque tu tá te incomodando com isso, então, cara?
Zonzo de tanta pergunta, o aluno sai do banco meio sem saber porque sentou ali.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Uma história triste :(

Esta história aconteceu no início desse ano... Ainda fazia calor e eu estava com os alunos da professora Cláudia na quadra. A turma que é bastante agitada fazia, "aos trancos e barrancos", as atividades que eu propunha. Sempre havia uns dois ou três alunos que se dispersavam da brincadeira para se baterem, correrem pra outro lado, atirarem coisas um no outro, enquanto eu ia ficando com os cabelos em pé!!! Em uma dessas resolvi parar de chamar os alunos "fujões" e me dedicar a aqueles que queriam brincar. Obviamente, já pensava uma estratégia para "capturar" os resistentes na próxima aula.
Brincávamos em roda enquanto via três alunos (Rick, Leonardo e Marcelo Augusto) correrem pelo pátio, pela pracinha e se enfiarem por entre as árvores da escola. Passados cinco minutos, dois dos três alunos sentaram-se e, quietos, conversavam. Achei aquilo estranho, afinal, nada aquietava aquelas crianças.
Reuni os alunos que estavam brincando comigo e os levei para tomar água e me aproximei dos três desobedientes dizendo com firmeza:
_ Vamos pra sala!
Um dos alunos vira-se pra mim e diz.
_ Professor o Marcelo Augusto machucou um passarinho.
_ Que história é essa, guri?
_ O Marcelo Augusto, professor, atirou pedras em um passarinho que estava na árvore e machucou ele. O passarinho deve estar morto! Agora ele pegou o bicho e levou pra sala
Nesse meio tempo, os demais já estavam saindo do bebedouro. Foi então que solicitei que as crianças ficassem esperando na porta enquanto eu iria resolver coisas com o Marcelo Augusto.
Agitadas as crianças começaram a gritar do lado de fora:
_ Ow Marceloooo, tu matou o passarinho!!!!
_ Eh, que maldade!!!!
Voltei ao lado de fora, passei um "belo sabão" nas crianças e solicitei que ficassem quietas.
Entrei na sala e chamei pelo guri. Num primeiro olhar não consegui ver onde estava. Percorri com os olhos mais atentos e vi a criança agachada atrás das cortinas.
_ Marcelo Augusto, tu tá aí? Tu tá com o passarinho?
A criança começa a chorar.
_ Filho, sai de trás dessa cortina. Vamos conversar.
_ Não, não vou sair_ respondeu chorando_ eu matei um passarinho. Coitado do bicho.
Nesse momento a criança pega o passarinho na mão e coloca o corpo do bicho para fora da janela ameaçando jogá-lo.
_ Marcelo, não faz isso! Deixa o professor ver se o bicho está vivo.
Aproximei-me e tirei o bicho das mãos do aluno que agachou novamente chorando compulsivamente.
O corpo do animal ainda estava quente e o sangue escorria pelo bico. Era um pardal já adulto e que estava morto.
Neste instante, o sinal soou, indicando o término da aula. Haviam pais esperando os filhos para os levarem para casa. Coloquei o bicho em cima de um armário alto para que ninguém o visse, abri a porta e pedi para que as crianças pegassem o material rapidamente.
Marcelo Augusto permaneceu atrás da cortina enquanto as crianças iam embora...
Esvaziada a sala voltei-me para a criança.
_Marcelo, vamos?
_Não, eu matei o bicho, coitadinho... O bicho morreu, não morreu?
_Sim, filho, morreu...
O choro continuava aos soluços.
_ Que tal a gente enterrar o passarinho? _ Propus. A criança olhou pra mim meio reticente. _ É, a gente faz a cova no pátio, enterra e reza pra ele ... vamos?
Com muito custo a criança levantou-se, pegou seu material e me deu a mão enquanto eu segurava o passarinho na outra. Sugeri enterrarmos o animal atrás da sala, mas a criança indicou a pracinha, em meio aos brinquedos e às árvores. Logo relacionei aquele sendo um espaço mais bonito e, sobretudo, mais alegre. Fomos à pracinha, cavamos a terra, passei o bicho para a criança que o colocou, chorando, na cova. Enterramos e fizemos uma prece. As lágrimas voltaram mais intensas enquanto proferíamos a oração. Atento, sinalizei para as professoras que ninguém se aproximasse, a fim de não constranger a criança. Terminamos a oração e chamei o aluno para irmos, mas a criança queria permanecer ali mais alguns instantes. Atrasado para o trabalho em Novo Hamburgo, despedi-me do guri e fui até a Supervisora e à diretora que nos olhavam de longe. Contei rapidamente o que havia acontecido e pedi que não comentassem nada, como se não soubessem do acontecido. Despedi-me e fui em direção ao carro. Além da supervisora a diretora ouviu a história e sensibilizada falou.
_ Vou oferecer uns pasteis pro Marcelo Augusto.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Histórias Curtas - 6

Hoje, logo no início da aula, ao organizar as crianças para explicar as atividades, uma guria chama minha atenção. É uma aluna de inclusão que, apesar de não falar, se faz entender muito bem...
De pé, a aluna faz um gesto indicando vontade de ir ao banheiro fazer xixi...
Viro-me para ela e pergunto:
_ O que foi, meu anjo, tu quer ir ao banheiro?
Antes que a aluna pudesse acenar com a cabeça, um guri que estava atento à conversa se antecipa e diz:
_ Não, ela quer fazer aula de dança. (o guri tem 7 anos)
Viro-me para o lado onde estava o intrometido e penso: "Maaaldiiiiiiiiiiito!!!!"
Olhando de canto para a criança, meu semblante questionava "Guri, tu tá me tirando?????
O aluno sequer olhou para minha cara, mas no canto da boca havia o esboço de sorriso, reflexo de uma gargalhada interna.
Muito esperto e bem articulado, o guri sai falando outras coisas sobre outros assuntos na tentativa de desviar o foco... Na verdade minha vontade era de rir também, mas, a fim de preservar minha dignidade, me mantive bem sério.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Histórias curtas 5

Estavamos almoçando na escola, na sala dos professores, a prof. Ana, a prof. Sônia, eu e a prof. Carmens (orientadora educacional da escola). Entre uma garfada e outra, rolava umas risadas no meio de assuntos dos quais não se aproveitava muita coisa. Enquanto estávamos na sala dos professores, as crianças inscritas no "Mais Educação" (proposta de turno integral mantida pelo governo federal), brincavam no pátio. Logo é comum ouvir conversa e correria de criança no horário do almoço.
Passados alguns minutos, a professora Carmens levanta-se pra ir escovar os dentes. Continuamos na sala conversando... Passados mais uns minutos, a porta se abre. Era a professora Carmens que com uma mão na maçaneta e a outra segurando escova e pasta de dente, foi chamada por alguns alunos... havia muitas crianças conversando ao mesmo tempo, logo não ouvimos o teor da conversa... De súbido, um silêncio paira e, naquele exato momento a prof Carmens, com sua habitual serenidade, pergunta para as crianças:

_ Mas quem é que tá mostrado o pinto???

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Professora Valéria, nós te amos muito demais...

Depois de termos brincado um monte na quadra, eu e as crianças do primeiro aninho (6 anos) voltamos para a sala. Apesar de ter solicitado que ficassem mais calmos, sentados nas classes, as crianças sempre voltam da aula de Educação Física meio agitadas, ofegantes e falando alto. Nós ainda tínhamos mais uns 3 minutos antes da troca de horário e, para que as criaturas não ficassem mais agitadas, propús:

_ Turmaaaaaa, vamos fazer um cartão pra Prof Valéria no quadro? - A professora Valéria faz a "hora do conto" com as crianças e sempre recebe a turma após a minha aula.
Prontamente as crianças disseram:
_ Siiiiiiiiiiiiiiiiiim!
_Ok, então eu vou perguntar para cada grupinho o que querem que eu desenhe ou escreva, tá? O grupo que estiver mais bonito começa! - Rapidamente todas as crianças se ajeitaram nas classes e apoiaram as cabeças sobre os braços. Fiz uma cara de dúvida e escolhi um grupinho... _ O que vocês querem que eu coloque no Quadro?
_ Desenha um coração, Pro. Outro aluno disse: _ É, e desenha um carro e uma estrela.
Fiz os desenhos e as crianças adoraram. Me senti um artista! Até cachorro eu desenhei sem eles pedirem! Ficaram maravilhados com minhas habilidades... Continuando com os grupinhos, recebi outros pedidos:
_ Pro, desenha uma flor e escreve, Professora Valéria eu te amo muito. _ Olhei para a criança e disse:
_ Fulano, esse é um cartão da turma... e tu disse eu te amo... é só tu que ama a professora Valéria?
_ Nãaaaaaaaaaaaaaaao - responderam em coro.
_ Então como podemos escrever?
_ Nós, Prof. Nós!!!
_ Isso, muito bem!!! Nós o quê?
_ Nós te amos!
_ Hein????? Perguntei meio rindo.
_ Nós te amos muito demais!!! Escreve aí Prof, escreve!!!!
_ Virei-me pro quadro rindo... coitadas das crianças estão recém aprendendo a juntar as letrinhas e eu propondo que conjuguem verbo!!!!

domingo, 10 de julho de 2011

Professor, o senhor viu o desenho que eu fiz pra ti?

Estava indo com um aluno buscar alguns materiais que havia separado e deixado na sala dos professores, quando uma aluna bem querida me chama. Olho para trás e aguardo a guria aproximar-se de mim.
_ Professor, o senhor viu o desenho que eu fiz pra ti?
_ Que desenho, meu anjo?
_ Fiz um desenho pra ti, mas o senhor não pode ver na hora porque estava cuidando das crianças.
_ Mas tu me mostrou o desenho?
_ Sim.
_ Hum, não me lembro...
Até então, estava pensando que a aluna havia desenhado em seu caderninho e como estava às voltas com as crianças, não consegui dar atenção.
_ Professor, eu te dei o desenho, mas o senhor disse que ia ver depois porque tinha que cuidar da turma.
_ Tu tens certeza que me deu o desenho?
Sem responder verbalmente ela acena positivamente com a cabeça e com aquelas bochechas fofas!!!! Nesse mesmo momento, o aluno que se encaminhava comigo em busca dos materiais se pronuncia:
_ É verdade professor, eu me lembro dela te dar um papel.
Foi então que eu me senti um monstro! A guria de 7 aninhos balançava a cabeça positivamente com uns olhinhos tristes e eu tinha vontade de enfiar minha cabeça na terra!!!
Com receio de mentir e deixar estampado na minha cara, "estou mentindo", resolvi contornar a situação de outro modo.
_ Meu anjo, tu colocou nome no teu desenho?
_ Não.
_ Hum, então vou ver no meio dos desenhos que ganhei e vejo se encontro, tá?
Com uma carinha mais feliz, ela volta a brincar com as outras crianças. Viro-me de costas para aluna e quase que instintivamente começo a balbuciar lentamente e sem emitir som... "a  v  e      m  a  r  i  a".
O aluno ao meu lado, atento a tudo o que acontecia, vira-se para mim e diz...
_ hahahahaha o professor fala bem baixinho "ave maria"!!! hahahahaha
Mais que depressa, olho para baixo, e respondo ao guri com vontade de fazê-lo sumir!!!
_ Tah, guri! O que é que tu quer aqui? Encher teu professor?
_ Não, tu me pediu pra te ajudar a buscar o material.
Ave maria, novamente!!! Outro fora em menos de um minuto!!!! Mas como sou esperto dei a volta por cima...
_ Ahhhhhhh, então vamos bem caladinhos tá?
Chegando na sala dos professores, dei o material ao aluno e disse para ele seguir sem mim. Tudo que eu queria era que o guri fosse para longe pra eu me enfiar no banheiro de vergonha!!!!

Enfim, passados três dias, mexendo no meu escaninho, na sala dos professores, encontro o desenho da aluna. O sol fez-se na minha vida!! Fui até a sala da guria e a chamei para mostrar que não havia jogado fora o desenho. Agradeci, disse que ficou bem bonito e nos abraçamos demoradamente. Dirigi-me com a consciência tranquila para a próxima aula.  Senti-me muito bem por não ser um monstro insensível!!!!! hehehehehehe



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Histórias Curtas - 4

Estava em aula com as crianças do primeiro aninho (6 anos) quando um guri sai da fila da brincadeira muito nervoso e se dirige até a mim.

_ Professor, a fulana fica toda hora pegando no meu pinto!
_ Hein?!?! - Perguntei já esboçando um sorriso.
_ É a fulana, professor, ela fica pegando no meu pinto!
Antes do aluno terminar a frase eu já estava rindo... olhei pra criatura e disse:
_ Cara, hoje tu reclama, mas daqui um tempo a história vai ser beeeeeem diferente... Mais bravo ainda, uma vez que eu dava risada da situação, o guri molestado exigia que eu fizesse algo. Virei-me pra aluna e disse:
_ Fulana, não tem que ficar encostando no coleguinha, né? Ainda mais se ele não quer!!
De costas para as crianças continuei minhas boas risadas!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Histórias Curtas - 3

Já em aula com as crianças na quadra, um guri chega esbaforido e muuuuito indignado...
_ O que foi cara? Que vermelhão é esse? Porque tá bravo?
_ Professor, foi o fulano, ele chamou a minha mãe de "vai tomar no cú"!!!!!
_Hein???
_ O fulano chamou minha mãe de "vai tomar no cú"!!


Em outro dia, em outra aula, com outra turma...


_ Professor, professor!!! Olha lá o Ítalos!!!
_ O que foi?
_ Ele me chamou de idiota!!!
_ Mas cara, tu é idiota?
_ Não!!
_ Então não te estressa... deixa que vou falar com ele.
Nesse meio tempo o Ítalos se aproxima e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o aluno ofendido se posiciona:
_ Eu não sou idiota!!! Quer ver!!!
Nesse momento o aluno sai em disparada, correndo atrás do ofensor, ao mesmo tempo em que proferia o alfabeto, numa tentativa de legitimar sua posição de não idiota.
_ OLHA SÓOO!!! A, B, C, D, U, F, G, T, Q...

PS: Os alunos em questão estão no segundo ano e em processo de alfabetização.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Histórias Curtas - 2

_ Professor foi o senhor que quase atropelou um cachorro perto da minha casa?
_ Ahn??? Que cachorro? Guri!
_ Não era o senhor que estava dirigindo um caminhão de gás perto a minha casa e quase matou um cachorro?
_ Caminhão de gás? Que história é essa?

Já quase em paciência o aluno retoma.

_ Professor, o senhor não trabalha dirigindo caminhão de gás?
_ Não. hehehehehehe
_ O senhor trabalha de que, então?
_ Pode ser dando aulas pras crianças?...

domingo, 29 de maio de 2011

E a minha fama de analfabeto continua...

Era uma sexta feira e toda a rede municipal de ensino de Canoas havia parado para que os professores se reunissem para estudar. Assim foi a tônica de todo aquele dia. Durante o intervalo da tarde, por volta das 15hs, uma das professoras vira-se para mim e diz:
_ André, os meus alunos, outro dia, disseram que quando crescerem serão professores de Educação Física. Eu, então, disse, muito bem, muito legal. Daí eles disseram que para ser professor de Educação Física não precisariam saber ler nem escrever.

(Os alunos em questão estão no segundo ano da educação básica, em média tem 7 anos e estão passando pelo processo de alfabetização)

Depois de rirmos um pouco a professora concluiu:
_ Mas André, eu disse pra eles que para ser professor de Educação Física tem que saber ler e escrever, mas eles retrucaram, dizendo que professor de Educação Física só dá aulas na quadra e que tu  não sabes dar aulas dentro da sala.
Rimos mais um pouco e a professora continuou:
_ E ainda sobrou pra mim. Disseram que eu só sei dar aulas dentro da sala, que eu não sei dar aulas na quadra. Eu disse que não, que o professor André sabe dar aulas dentro da sala e que, se eu quiser, posso preparar uma aula na quadra. Mas acho que eles não se convenceram muito.
Passados alguns dias entrei na sala da tal turma e resolvi tirar satisfação com os alunos que pensavam que eu era analfabeto. Onde já se viu?? Eu, praticamente um Doutor, levar fama de analfabeto!!!! Não, isso não poderia ficar barato.
Adentrei o recinto e logo perguntei!

_ Quem foi que disse pra professora Andressa que eu não sei ler nem escrever?
Ficaram calados por um tempo. Refiz a pergunta.
_ Anda gente! Quem foi que disse que professor de Educação Física não precisa saber ler, nem escrever?
_ Ahhhhh, fui eu e o Charles!!!
_ De onde vocês tiraram isso?
_ Ah professor, pra dar aula e Educação Física não precisa saber ler nem escrever. É só levar as crianças pra quadra.
_ Não tem nada disso! Respondi. E como autoridade academica que passou por 4.5 anos na faculdade, 2 anos no mestrado e, por enquanto 3, no doutorado, continuei.
_ Só pra vocês saberem, eu sei ler e escrever. _ Disse em tom de soberba.

As crianças não convictas queriam provas! Naquele momento a conversa já tinha atingido toda turma e, mesmo os mais quietos, que nunca ousariam duvidar de um professor, já estavam eriçados querendo que eu provasse minhas habilidades linguísticas. Foi então que corri os olhos pela sala para encontrar algo que pudesse ser lido. Deveria ser algo  grande e exposto a todos, para que pudessem atestar a veracidade da minha competência de leitura. Ao fundo da sala avistei um alfabeto que apresentava uma palavra iniciada com a letra correspondente.
Abaixo, eis um trecho do tal alfabeto...









Após avistar o alfabeto e totalmente pronto para minha redenção. Disse:
_ Se vocês querem que eu leia, lerei... _ E assim, o fiz!

_ Avião, Bicicleta, Cão, Dado...
Antes mesmo que chegasse na palavra "Elefante", fui interrompido com gritos e tumulto geral!!!
_ Não, não, não vale, não vale, tu tá roubando!!!!
_ O que foi?
_ Não vale professor!
Toda a turma estava de pé. Alguns em tom de acusação, outros, de riso e deboche.
_ Ah, viu só como não sabe, tu tá olhando as figuras!!!! _ Pontuou, um aluno.
Olhei para a turma meio que rindo, ao mesmo tempo em que estava preocupado, afinal, continuava analfabeto. Foi então que um aluno me entregou uma folhinha com um texto escrito por ele mesmo.
_ Lê isso aqui, professor.
Olhei para aquela folha e comecei a ler. Era um textinho que ele havia escrito em homenagem ao dia das mães. Li. Mas a letra do guri não era das melhores e acabei gaguejando. Uma das palavras, inclusive, li errado, porque não entendi a letra. Nesse momento, o guri, maldito, me corrigiu!!!!
Bom, pelo menos, não passo mais por analfabeto. Mas, na cabeça daquelas crianças, pra exímio leitor, preciso estudar muito.

PS: Na semana passada, voltei à sala para fotografar o alfabeto. As crianças olharam curiosas. Depois de sair, um dos alunos vira-se para a professora e pergunta.
_ Porque o professor estava tirando foto do alfabeto?
_ Não sei. _ Respondeu a professora.
_ Deve ser pra ele estudar em casa!!!!
EU MEREÇO!!!

quinta-feira, 31 de março de 2011

Barriga de tanquinho

      O sino havia acabado de soar e eu já estava na porta para a troca de horário com a professora da "Hora do Conto". Entrei na sala quando as crianças se acalmaram e disse:
_ Boa tarde!
_ Boa tarde - responderam em coro.
      Sem maiores delongas passei a explicar como ia acontecer a aula. Peguei um giz e fui para o quadro.
      Naquele dia eu tinha colocado uma camisa que as crianças não conheciam bem e logo ouvi alguns comentários. Na verdade, não gosto muito daquela camisa, me faz sentir calor, então prefiro não usar. Na falta de outra roupa limpa no roupeiro, peguei aquela mesmo.
      Enfim, percebi o estranhamento das crianças, mas não dei atenção, segui com os apontamentos no quadro.
       De súbito, quando havia acabado de me virar para a turma, um aluno disse:
_ Bahhh, professor, tu tá tanquinho, ein!!!
      Como o comentário me favorecia, não repreendi, segui a aula com uma leve sensação de satisfação.
      Explicadas as atividades, organizei as crianças e fomos para a quadra. Peguei os materiais, organizei os grupos e a aula seguia normalmente. Mais tarde, quando olhava atendo para a atividade desenvolvida por um grupo de gurias, o mesmo aluno que se referiu a mim como "barriga de tanquinho" se aproximou sorrateiro...
      Senti minha camisa subir. Olhei para baixo e o guri havia levantado minha roupa até o meio da barriga. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se pronunciou...
_ BÂÂÂÂÂÂÂÂÂÂHHHHHHH, professor, tu NÃO tá tanquinho...
Sem pestanejar respondi!!!
_ Ahhhh, guriiiii, tu não tem nada pra fazer, não? Vai brincar!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Professor, o senhor sabe ler?

Em comemoração ao reinício das aulas - amanhã temos reunião de professores para acertarmos os detalhes das aulas (Educação Básica) que começam na segunda dia 28-o2 - preparo este post relembrando uma das últimas historinhas do ano passado.

Já estávamos no mês de dezembro, em um horário em que eu estava sem aula, quando aproveitei para adiantar a correção de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Sentei-me no banco da quadra com o texto e uma caneta quando um aluninho sentou-se ao meu lado. Ele chama-se Juca e recém tinha feito 7 aninhos. O Juca é um fofo, é uma das menores crianças da sua classe e é muuuuito afetivo.
Então, Juca sentou-se ao meu lado no banco e de repente ja havia apoiado as costas em mim. Aproveitei e passei o braço por ele...
Como eu estava lendo e ele se alfabetizando, perguntei:
_ Juca, tu já sabe ler?
_Algumas coisas, ele respondeu.
Peguei a caneta e passei a sublinhar algumas palavras, pedindo que lesse para mim. Ele já sabia ler um monte de coisas, só tinha dificuldades com as palavras maiores...
Passados alguns segundos, o aluno vira-se para mim e pergunta:
_ Professor, o senhor sabe ler?
_ Sim! Respondi! Quer ver?
Nesse momento passei a ler um parágrafo inteiro do meio do TCC da aluna da faculdade... o guri ficou olhando, meio impressionado. Num súbito ataque de desdém, o aluno disse...
_ Hummm! O senhor não sabe ler nem Beyoncé!
Para reestabelecer a hierarquia professor-aluno, respondi prontamente:
_ Sei ler e sei até escrever...
_ Duvido! Dizia o aluno incrédulo.
 _Quer ver? Vou soletrar pra ti.
Os olhos do aluno se iluminaram, mas se manteve quieto à espera do prometido.
Passei então a dizer as letras:
_ B; E; I; O; N; C; E, e o último É tem um acento agudo. Viu só como eu sei...
Uma pausa se instaurou em meio ao diálogo...
_ Mas professor, não tem um Y?
_ Ih...  é mesmo, meu filho, esqueci...
_ Viu só como tu não sabe ler...    :-s

Bom recomeço de aula a todos nós...