domingo, 20 de junho de 2010

Festa Junina

Era uma quinta feira e estava em aula com uma turma que se organiza bem e já sabia como fazer as atividades que propus. Isso me possibilitou conversar mais de perto com alguns alunos e passar orientações mais precisas, em pequenos grupos. Em uma das minhas andaças, orientando as crianças, vi um aluno de outra turma sentado no banco, observando a aula. Não é rara presença dele naquele banco, o que muda são os motivos que o levam para fora da sala: a professora o convida a se retirar; ele sai por conta própria (fugido); as vezes pede para ir ao banheiro e não volta mais... enfim.
Como prática, eu nunca o repreendo. Sempre converso sobre coisas banais e, percebendo que ele está calmo no dia, peço que ele volte para sala. Marcelo Augusto (nome fictício) é assim, um pouco inconstante e isso dificulta o trato... Apesar disso, ele é um guri fofo, tem 8 anos e está cursando, pela segunda vez, o segundo ano.
Mas então, voltantdo à minha aula de quinta feira... encontrei o Marcelo Augusto observando a aula, quando me reportei a ele.
_ Oi Marcelo Augusto, como vai?
_ To bem...
Passados alguns segundos, eu já estava sentado do lado dele, quando me perguntou:
_ Professor, o senhor vai vir amanhã na festa junina?
_ Sim, é meu dia de trabalho, amanhã...
_ Eu não vou vir de gaúcho... disseram que é pra gente vir de gaúcho, de prenda ou de uniforme. Eu vou vir de uniforme porque de gaúcho eu não vou vir.
_ E porque tu não vem de prenda?
_ Eu não sou guria...
Atento a ele, respondi...
_ Hummmmm
Em seguida ele disse...
_ Essa festa junina tá muito estranha...
_ Porque, Marcelo Augusto?
_ Eles pediram pra gente trazer coisa pra ajudar, coisas de comer... Mas ta escrito no bilhetinho que amanhã a gente vai ter que comprar as coisas. O cara vai ter que comprar as coisas que ele mesmo trouxe!!!!
Suspeitando da perspicácia do aluno perguntei...
_ Quem te disse isso, Marcelo Augusto?
_ Ninguém...
_ Da onde tirou essa idéia?
_ De lugar nenhum, da minha cabeça...
Olhei pra criança. Ri meio impressionado e disse...
_ Vai Marcelo Augusto... volta pra tua sala que a professora deve estar te procurando...

terça-feira, 8 de junho de 2010

E pra que serve tudo isso??

Hoje tive um dia atípico pra um professor. Sabe quando tu vence o conteúdo e sobra uma aula? Não? Então imagine... pois foi isso que aconteceu. Em uma das minhas turmas do ensino superior tivemos todas as 20 aulas previstas no calendário, ou seja, não houve feriado, liberação de alunos ou coisas do tipo. Além disso, a turma de aproximadamente 25 alunos proporcionou um bom andamento da matéria. Pois bem... matei o conteúdo todo e ainda restava uma aula... o que fazer? Passei a semana do feriado pensando o que abordar... as temáticas possíveis foram muitas, consultei os livros, meus acervos de aula e cheguei à conclusão de que essa não deveria ser uma aula para os alunos. Não. Essa deveria ser agradável, sobretudo, para mim.
Assim sendo, daria um conteúdo além do programa de aprendizagem  e que, portanto, estaria fora das avaliações "formais" previstas. Dito isso, imaginem:
1 PROFESSOR ( - ) AVALIAÇÃO ( - ) OBRIGATORIEDADE DE CONTEÚDO ( + ) ALUNOS QUERIDOS =
A (    ) Conto do vigário
B (    ) Conversa fiada pra boi dormir
C (    ) Mentira cabeluda
D (    ) Condições sobre as quais preparei minha aula.
Pois foi isso mesmo, meu povo... parece mentira, mas foi verdade...
Assim sendo, resolvi discutir com os alunos as questões da indústria cultural em uma disciplina destinada a problematizar e vivenciar as questões do Lazer.
Peguei umas bibliografias e li uns textos. Depois de revisitar as teorias, coloquei-me a ver vídeos, traillers de filmes, ler fragmentos de livros de literatura, ouvir músicas... Enfim, tudo prepardo. Ao término pensei: "meus alunos vão pensar que tomo um trago antes de dar aula". Solicitei os equipamentos necessários, separei meus materiais e fui...
Depois de 4hs de aula na educação básica e 1h de transito na 116 cheguei "zen" para dar aula... Tomei um banho demorado, pedi algo pra comer e instalei toda a tralha.

As criaturas chegaram e as classes estavam dispostas formando um U. Entraram na sala e perguntaram:
 _ O que é isso?
Gentilmente respondi.
_ Cadeiras e mesas. Sentem-se logo e fiquem quietos.
Depois dos risos iniciais, começamos a aula...
Disse aos alunos:
 _ Gente, hoje não vou fazer chamada, não vou avaliar a aula. Hoje a aula será conteúdo extra.
Imediatamente 3 ou 4 alunos se levantaram pegando as mochilas... Eu quase morri de decepção... Mas no fim estavam brincando. Sentaram-se logo e riram com a piada. (Digo que achei a piada de péssimo gosto... já estava me sentindo o último dos mortais... DEFINITIVAMENTE ISSO NÃO SE FAZ).
Enfim, comecei... amarramos um entendimento acerca do termo indústria cultural, mostrei traillers de filmes, clips e músicas dos mais variados estilos. Conversamos sobre o caráter massificante da indústria cultural; a quem servia; os elementos de superficialidade, senso comum e consumo fácil de seus produtos etc. Fechamos a discussão e liberei os alunos pro intervalo.
(Alguns alunos nem foram para o intervalo e ficaram em sala conversando ali próximo a minha mesa sobre cantores bem legais, rodas de samba e música ao vivo... cerveja artesanal e coisas do tipo. Bons alunos. Bem queridos. Ali, mesmo sem a pretensão de avaliar, foi possível perceber que foram tocados pela discussão.)
De volta do intervalo, encontraram no chão da sala, colchonetes. Pedi para que se sentassem e, ao som de uma música suave, iniciei um alongamento leve. (a parte do alongamento não tinha nada que ver com o conteúdo da aula, mas é uma boa estratégia pra "sossegar o facho" dos alunos que voltam eufóricos do intervalo).
Feito isso, disse a eles:
_ Gente, dando continuidade à primeira parte da aula, vou mostrar coisas que eu curto a vocês. Deixei eles ali no chão sentados, outros deitados à meia luz e me pus a ler trechos de livros. Eu lia e eles ouviam, lia e faziam que ouviam, outros tantos nem faziam e mantinham o fone de ouvido... (esse vai rodar na cadeira e vai fazer semestre que vem novamente hehehehe). Para terminar mostrei um vídeo que eu adoro...
Depois, levantei-me. Acendi as luzes. Os olhinhos dos alunos ainda estavam fechados com a luz excessiva que voltava a emanar das lâmpadas, quando perguntei:
_ Meus amores, diz pra mim... Me diz pra que serve isso tudo que eu mostrei pra vocês? (Falava dos fragmentos de textos, músicas e vídeos que eu curtia)
Sem muito demorar uma aluna respondeu:
_ Pra gente poder refletir.
_ Hum, muito bem, respondi.
_ Pra gente ampliar as nossas possibilidades e acessar outras coisas.
_ Isso também pode ser.
_ Pra gente criticar as coisas...
_ Excelente, disse.
Interpelando o pensamento deles fiz outra pergunta:
Gente, se vocês tivessem me feito essa pergunta, sabe o que eu responderia?... (Silêncio se fez...) 
Pra P... nenhuma. Isso que mostrei pra vocês não serve pra p... nenhuma.
Alguns esboçaram um sorriso, outros arregalaram os olhos... caras de espanto.
Ponderei... o lazer e todas essas coisas que mostrei para vocês, não devem ser concebidos nessa perspectiva funcionalista e utilitária... essas coisas devem nos divertir e isso, pra mim, já tá de bom tamanho. Que nos divirta e, se for capaz de agregar coisas, melhor ainda...
Olhei novamente para aquelas caras e vi que estavam mais calmos... mas minha aula não deveria acabar assim. Não essa aula!
Dirigi-me, mais uma vez a eles dizendo.
_ Gente, como disse, essa aula é conteúdo extra. Logo, vocês podem fazer o que quiserem com essa baboseira que eu falei pra vocês. Pensem, reflitam, ou, se quiserem... esqueçam tudo o que eu disse; podem até dizer que eu to variando...
Um beijo grande... nos vemos na semana que vem...
Novamente olhar de espanto... e um boa noite, meus amores, encerrou a aula.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Em débito...

Pois é, gente... sei que to em débito com o blog, mas juro que não rolou nada que eu pudesse postar aqui... assim sendo, to preparando um texto que conta um caso que aconteceu há uns seis meses...
Posto até o fim da semana...

Beijos

domingo, 23 de maio de 2010

Chloe

Estava em casa num fim de domingo, meio com fome, querendo ver gente e ser visto. Bom, pensei: vou ao cinema. A escolha não foi pelo título, nem pela sinopse, foi pelo horário. 22:15 era a única sessão viável, as anteriores já havia perdido e as outras tantas, após, terminariam muito tarde. Logo, "O preço da traição" foi a filme escolhido. Com título original, Chloe, o filme traz Julian Moore e Amanda Seyfried no elenco, o que, logo nas primeiras cenas, me deixou bastante feliz (não sabia que era com elas hehehe). Sentado na poltrona e comendo uma bobagem, deixei-me capturar e, ao longo da narrativa, me via maravilhado com a beleza, sensibilidade e complexidade atribuídas aos corpos e às sexualidades presentes naquele filme. Ainda tocado pela história, não creio que devo falar de modo mais detido sobre ela... nem mesmo, sinto-me autorizado a isso...
Se me permitem... assistam.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Publicações...

People, construí uma página onde coloco links e informações dos meus textos acadêmicos... Entretanto, pelo layout do blog, o acesso ficou meio apagadinho... por isso, estou fazendo este post para indicar que no canto superior esquerdo desta página há um atalho justamente chamado, "Publicações..."
Um abraço

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Johnny Weir - O Patinador Poker Face

Após apresentação de Johnny Weir (http://www.youtube.com/watch?v=0B1254JPmMk) nas olimpíadas de inverno de 2010, comentaristas da emissora RDS fizeram menção de repúdio à apresentação do patinador. Johnny Weir feria o esporte e levava má fama para os outros concorrentes ao eleger música e coreografia, que, segundo eles, eram altamente marcadas de feminilidade. Johnny Weir deveria fazer um teste de sexualidade e, quem sabe, ir competir com as mulheres...

Esse acontecimento tornou-se o eixo de uma das avaliações de uma dada disciplina que leciono... O post que se segue foi organizado por mim, carregando os posionamentos construídos pelos meus alunos.

"Johnny Weir fez uma apresentação (...) que mexeu com a mesmice dos anos anteriores, quando músicas clássicas predominavam e, com isso, foi taxado de homossexual. Entretanto, em nenhum momento da apresentação Weir afirmou sua sexualidade, apenas colocou em prática uma coreografia que não era de costume para a patinação artísitica masculina" (Belloto e Druzian). "Culturalmente os corpos são representados dentro de uma dada perpectiva de masculinidade ligada à força e virilidade e a feminilidade ligada à delicadeza, maternidade e leveza." (Ávila e Amaral). Assim, quando (...) Weir, patinador homem quebrou a "regra social" (...) vimos o estranhamento se materializar nos comentários da emissora de TV. Ao nos deparar com situações como essas pensamos em duas possibilidaddes...

1) Os atributos de graça, leveza e sensualidade trazidas por Weir não devem ser pensados em uma relação direta com sua sexualidade. Desse modo estariamos, erroneamente, essencializando a feminilidade e a masculinidade, fechando espaços para outros modos de ser homem e mulher... Desse modo aponto que as feminilidades e as masculinidades são múltiplas, mutáveis, mutantes, não contingentes... o plural se manifesta nos inúmeros modos de ser homem e ser mulher... Entretanto, o que impera é um olhar obtuso que liga graça,  leveza e sensualidade exclusivamente à feminilidade e que, quando é exercida por um homem, sua sexualidade é logo posta em suspeição. Aos comentaristas da emissora de TV, eu diria, vão estudar mais um pouquinho...

2) "Independende da orientação sexual (o patinador abertamente se posiciona como gay), Weir é profissional de um esporte que tem, acima de tudo, um apelo estético com traços de suavidade, leveza, elegância (...) Com todos esses aspectos, a patinação artística é uma modalidade que exige sensualidade..." (Heinen e Attolini). "Weir utilizou seu corpo de forma expressiva demonstrando na coreografia um sensualismo sem pudor.  Ademais a sexulaidade de Weir não estava em questão naquele momento". "Independente de sua sexualidade o patinador se preparou muito para o evento," constituindo-se como o 13º do ranking mundial  (Costa e Garcia). Os apectos discutidos pelos comentaristas deveriam ser de ordem técnica, preocupando-se com a execução das exigências da modalidade e coisas afins...
"Pensamos ainda que Jonnhy Weir não feriu o esporte por ser homossexual, como indicam os comentáristas da TV, pelo contrário, agregou valor a este com seu talento excepcional" (Bishoff e Stroher).

Os trechos em itálico e entre aspas foram extraídos das construções textuais dos alunos. Os demais são meus... Opto por construir esse post a partir de trechos dos acadêmicos, uma vez que temo pela agressividade em mim suscitada diante cometários tão medíocres. Acho que os alunos souberam dosar melhor a indignação...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Eu sei sor, o lixo tem bactérias..."

Hoje, em função da chuva, estava trabalhando com uma turma de alunos dentro da sala, conversando e fazendo atividades ali mesmo. Para evitar tumultos, enquanto os alunos não estavam fazendo a atividade, pedi para que permanecessem sentados em seus lugares. Habitualmente, eles se sentam em grupos em uma grande mesa redonda, cujo centro sustenta um baldinho de lixo.
A aula corria bem, quando uma aluninha chamou...
 _ Professor, o Fulano está comendo o trabalhinho dele!!!
Eram folhas de papel pardo do tamanho de uma A4. O aluno segurava cada uma, em uma das mãos, o papel estava amassado e presos fortemente pelos dedos e punho cerrado... A criança levava cada uma das folhas à boca, e as rasgava com os dentes... Como se não fosse o suficiente ainda mastigava, com a boca aberta aquele papel já molhado de saliva.
Vendo aquela cena inusitada, pensei... O aluno só quer tumultuar, logo, provavelmente, vai parar... Ledo engano... ele comia e comia o trabalhinho, chegando até a engolir o papel.
Fiquei preocupado e fui até la.
_ Fu-laaaa-no (porque se não separar o nome das crianças em sílabas, a advertencia não sute efeito), o que é isso? Que nojooooo. Cospe isso no baldinho de lixo, guri!
Olhando para mim, o guri nada fez. Repreendi novamente retirando de suas mãos o papel que ainda restava. Logo pôs-se a cospir papel e saliva, como se quisesse limpar a boca... Mais aliviado, falei:
_ Muito bem, meu filho...
De súbito, o guri enfiou as mãosinhas na lixeira e pegou todo o lixo possível, metendo de uma só vez na boca, emitindo sons com o mastigar de boca aberta.
De onde estava foi possível avistar: pontas e cascas de lápis, pedaços de papel, embrulho de bala e até um pedaço de papel higienico.
Olhando aquela cena não acreditei no que acontecia... a boca do aluno estava cheia de lixo, emitindo sons animalescos, balançando a cabeça com vigor, enquanto eu dizia:
 _ Fu-laaaa-no, cospe isso, guri, cospe isso, tu tá ficando doido? Tu tá doido, meu filho!!!!
E eu chegava com a lixeira perto dele e dizia: cospe, cospe logo, guri... que nojo... As crianças faziam mensão de asco... a mim, não cabia fazer mais nada... Diante daquela cena surreal, comecei a rir...
Mais tarde, voltando pra casa, as lembranças me tiraram lágrimas dos olhos e dores nos maxialilares... não conseguia parar de gargalhar.



PS: O aluno cuspiu o lixo e de modo reservado conversei com ele sobre os perigos da sujeira do lixo. Ao que disse o aluno? "Eu sei sor... no lixo tem bactérias..." A criança tem seis anos.