sexta-feira, 29 de abril de 2011

Histórias curtas 1

Estava sentado no banco, corrigindo uns textos num desses poucos horários de folga, quando uma aluna se aproxima, senta-se no meu colo e diz:
_ Professor, sabe de uma coisa? Estou gostando de um guri...
A aluna tem 10 anos.
_ Hummmm, e quem é o felizardo, Danielle?
_ O Joãozinho.
_ Até hoje!!! Desde o ano passado eu já ouvia essa história!!!
_ È, mas ele também gosta de mim.
_ Ahhh, e agora? Como vocês vão fazer? Vão namorar?
Irritada, a aluna levanta-se rapidamente do meu colo, dizendo:
_ Ai professor, como tu é infantil!!!
Saiu em direção à sala de aula sem, sequer, olhar pra trás.

sábado, 9 de abril de 2011

Pistórius e a Neo Eugenia





Nesta última semana a correria intensificou-se. Além das demandas habituais recebi um convite da Silvana (minha orientadora do doutorado) para escrevermos um texto juntos. Até onde sei, ela já estava com o artigo praticamente pronto, quando o PC quebrou. Com a corda no pescoço saiu à busca de algum texto que pudesse aproveitar para encaminhar para a publicação. Fuçando os arquivos encontrou minha proposta inicial de tese e, então, entrou em contato para trabalharmos juntos.
Topei a empreitada que tinha dez dia de prazo.
Pensei... barbada! Conheço a discussão e 10 dias é mais do que o suficiente!
A ideia era relacionarmos os processos de investimento tecnológico no corpo com os pressupostos da Eugenia (ciência gestada no século XIX que tinha por fim promover a melhoria da espécie humana). O argumento central utilizaria elementos da "cultura fitness" e do esporte de alto rendimento para dizer que, contemporaneamente, presenciamos uma Neo Eugenia.
Passados dois dias após termos fechado a proposta do texto, Silvana me liga novamente e diz:
_ André, nosso prazo foi reduzido... temos que entregar na terça!
Ou seja, dos 8 dias, perdemos 4! Então, prontamente disse:
_ Ok, se é esse o prazo, vamos encaminhar o texto com o prazo que temos.
Obviamente, que depois de desligar o telefone eu pensei... Fu...
Entre uma aula e outra mergulhei na escrita e, o que em princípio parecia ser barbada, se tornou bastante trabalhoso.
Apropriado dos elementos teóricos fui à busca de atletas que me ajudassem a pensar essa discussão. Meus alunos da turma de sábado já haviam me dado uma pista sobre um tal chinês, atleta de basquete, Yao Ming. A partir de então, cheguei a aspectos dos corpos de Michael Phelps (nadador norte americano) e Tiago Pereira (nadador brasileiro). Imerso em imagens e textos, sobre atletas espetaculares, encontrei Oscar Pistórius, atleta sul africano que teve suas pernas amputadas aos onze meses de idade. Pistórius seria perfeito! Seu corpo, suas próteses, seu desempenho esportivo era tudo o que eu precisava para amarrar a discussão.
Ler sobre sua trajetória, acessar suas imagens e assistir a seus vídeos abriu, diante de mim uma outra sensibilidade que, infelizmente, o formato de texto exigido para publicação não conseguiria alcançar.
Meu desejo no momento de escrita era possibilitar aos leitores assistirem a vídeos, verem imagens, analisarem os formatos de suas próteses... mas a tinta impressa no papel não me permitiria isso...
Neste sentido, resolvi construir este post, e utilizar os recursos que blog me disponibiliza para tentar dimensionar imagem de Oscar Pistórius.



"Assim é Oscar Pistorius, atleta paraolímpico que aos onze meses de idade teve suas pernas amputadas. Seu corpo, então, tornou-se alvo de investimentos e, na articulação entre várias áreas do saber, deu origem a um ser híbrido de carne e fibras de carbono. Aos moldes da Eugenia do século XIX, o atleta sul africano jamais se tornaria um emblema de “Homem puro-sangue”, sobretudo porque nasceu marcado por uma má formação congênita. Entretanto, sob os imperativos da neo Eugenia, sua mazela foi extirpada e sua “deficiência” suplantada pela tecnociência. Pistorius, neste texto é o emblema da neo Eugenia ao potencializar seu corpo para além de suas condições “puramente” humanas."
(...)
"Nas práticas neo eugênicas da contemporaneidade, o corpo de Pistorius que, aos onze meses de idade, vislumbrava a quase imobilidade, potencializa-se, acopla dispositivos tecnológicos e emancipa-se para uma condição híbrida. Aos nossos olhos, é o emblema do processo de melhoria da espécie." (Goellner e Silva - no prelo)




quinta-feira, 31 de março de 2011

Barriga de tanquinho

      O sino havia acabado de soar e eu já estava na porta para a troca de horário com a professora da "Hora do Conto". Entrei na sala quando as crianças se acalmaram e disse:
_ Boa tarde!
_ Boa tarde - responderam em coro.
      Sem maiores delongas passei a explicar como ia acontecer a aula. Peguei um giz e fui para o quadro.
      Naquele dia eu tinha colocado uma camisa que as crianças não conheciam bem e logo ouvi alguns comentários. Na verdade, não gosto muito daquela camisa, me faz sentir calor, então prefiro não usar. Na falta de outra roupa limpa no roupeiro, peguei aquela mesmo.
      Enfim, percebi o estranhamento das crianças, mas não dei atenção, segui com os apontamentos no quadro.
       De súbito, quando havia acabado de me virar para a turma, um aluno disse:
_ Bahhh, professor, tu tá tanquinho, ein!!!
      Como o comentário me favorecia, não repreendi, segui a aula com uma leve sensação de satisfação.
      Explicadas as atividades, organizei as crianças e fomos para a quadra. Peguei os materiais, organizei os grupos e a aula seguia normalmente. Mais tarde, quando olhava atendo para a atividade desenvolvida por um grupo de gurias, o mesmo aluno que se referiu a mim como "barriga de tanquinho" se aproximou sorrateiro...
      Senti minha camisa subir. Olhei para baixo e o guri havia levantado minha roupa até o meio da barriga. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se pronunciou...
_ BÂÂÂÂÂÂÂÂÂÂHHHHHHH, professor, tu NÃO tá tanquinho...
Sem pestanejar respondi!!!
_ Ahhhh, guriiiii, tu não tem nada pra fazer, não? Vai brincar!

quinta-feira, 17 de março de 2011

De volta ao trabalho...

Logo após o Carnaval voltei efetivamente ao trabalho... as aulas no ensino superior já haviam começado desde fins de Fevereiro, mas as primeiras aulas são mais tranquilas e não exigem tanto do professor. Além disso,  na educação básica, apesar de também já estar na escola desde fins de Fevereiro, na primeira semana de aula não estive de fato em aulas com as crianças. A coordenação pedagógica entende que é positivo, nos primeiros dias, as crianças passarem mais tempo as professoras regentes de turma, criando assim maior identificação.

 Assim sendo, passado o Carnaval "voltei" às aulas...
Quarta à tarde estivemos em reunião pedagógica na escola, depois fui para Novo Hamburgo substituir uma professora na Faculdade. Na quinta à tarde tive minhas primeiras aulas com as crianças e logo após, segui para Novo Hamburgo para novamente substituir a professora. Sexta feira, aula com as crianças à tarde e logo após, Novo Hamburgo. Após o término da aula, voltei, como de costume, para Porto Alegre, pegando mais uma hora de trânsito. Cheguei podre, cansado e com dor de cabeça... Comi algo e apaguei.

Acordei no outro dia,  meio retardado e às 8hs da madrugada estava me dirigindo para escola... foi sábado letivo e passei com as crianças e professores toda manhã. Da escola, novamente fui pra Novo Hamburgo, orientei uma aluna as 13hs (mas me atrasei) e as 14hs estava novamente em aula.
Tudo corria bem, dei a primeira metade da aula na boa (digo, na técnica) e logo passamos para o segundo tema... passei um fragmento de um filme.
Sentado junto aos alunos assistindo ao filme, dei umas duas pescadas com os olhos abertos.
Terminado o trecho,  partimos para a  discussão. A aula teria mais 15 ou 20 min, no máximo. Dirigi-me aos alunos e perguntei:

_ E ai, meus amores, digam pra mim o que é possível pensar a partir deste fragmento de filme? Que corpos habitavam a Idade Média?
Os alunos disseram coisas e fui tomando nota no quadro. Após as falas dos alunos passei a amarrá-las com o conteúdo a ser socializado. Foi então que a coisa começou a ficar feia...

"Mal e porcamente" respondi aos apontamentos de um aluno, depois, ao entrar nas especificidades do conteúdo, fui vendo a aula se perder...
Genteeeeeeeeeeeeeee eu esquecia tudoooooooooooo!!! Eu não me lembrava o nome do regime político, da ordem religiosa e outras tantas especificidades daquele período histórico. E para aqueles que tem dúvida, SIM!!!! EU PREPAREI A AULA COMO SEMPRE FAÇO!!!!

Em meio a um branco e outro os alunos me lembravam das coisas. A cada auxilio eu respondia, obrigado meu filho e ria... Foi então que mais um branco me ocorreu. Parei a aula. Olhei para aquelas carinhas ávidas por saber e fiz uma pausa dramática.

Eu estava no meio de uma frase, no meio de uma assunto... os alunos estavam atentos... A pausa terminou quando disse:

Meus amores, um abraço pra vocês, a gente se vê no sábado que vem...
Silêncio na sala por um instante.

_ Mas o que é isso professor, o que foi?
_ Gurizada, não tá rolando a aula... semana que vem retomamos o assunto e em 15 min matamos o conteúdo,  ok? Beijos e até sábado.

Caminhei em direção a minha mesa meio que rindo, porque chorar não era cabível naquela situação. Alguns alunos já saiam porta afora, outros ainda atônitos, olhavam para mim sem acreditar direito no que estavam presenciando...

Ao sair da sala, fechei a porta, me despedi das criaturas que ainda estavam por ali, virei meu rosto para a esquerda e em minha direção caminhava um outro aluno... impulsivamente disse:

_ Ihhhh, agora aquele guri, ainda vai ter orientação de TCC comigo... coitado!!!
Saí de Novo Hamburgo às 17:37.

Para o próximo sábado vou me puxar pra ver se consigo me redimir.

domingo, 6 de março de 2011

Eu não quero voltar sozinho...

Há alguns dias um amigo me mandou esse este link... Assisti ao curta e me encantei com a sensibilidade da história. Fiquei muito feliz e sensibilizado com a narrativa que, dentre outras coisas, serve para nos fazer (re)pensar concepções de corpo, gênero e sexualidade...
Assistam, é lindo!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Professor, o senhor sabe ler?

Em comemoração ao reinício das aulas - amanhã temos reunião de professores para acertarmos os detalhes das aulas (Educação Básica) que começam na segunda dia 28-o2 - preparo este post relembrando uma das últimas historinhas do ano passado.

Já estávamos no mês de dezembro, em um horário em que eu estava sem aula, quando aproveitei para adiantar a correção de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Sentei-me no banco da quadra com o texto e uma caneta quando um aluninho sentou-se ao meu lado. Ele chama-se Juca e recém tinha feito 7 aninhos. O Juca é um fofo, é uma das menores crianças da sua classe e é muuuuito afetivo.
Então, Juca sentou-se ao meu lado no banco e de repente ja havia apoiado as costas em mim. Aproveitei e passei o braço por ele...
Como eu estava lendo e ele se alfabetizando, perguntei:
_ Juca, tu já sabe ler?
_Algumas coisas, ele respondeu.
Peguei a caneta e passei a sublinhar algumas palavras, pedindo que lesse para mim. Ele já sabia ler um monte de coisas, só tinha dificuldades com as palavras maiores...
Passados alguns segundos, o aluno vira-se para mim e pergunta:
_ Professor, o senhor sabe ler?
_ Sim! Respondi! Quer ver?
Nesse momento passei a ler um parágrafo inteiro do meio do TCC da aluna da faculdade... o guri ficou olhando, meio impressionado. Num súbito ataque de desdém, o aluno disse...
_ Hummm! O senhor não sabe ler nem Beyoncé!
Para reestabelecer a hierarquia professor-aluno, respondi prontamente:
_ Sei ler e sei até escrever...
_ Duvido! Dizia o aluno incrédulo.
 _Quer ver? Vou soletrar pra ti.
Os olhos do aluno se iluminaram, mas se manteve quieto à espera do prometido.
Passei então a dizer as letras:
_ B; E; I; O; N; C; E, e o último É tem um acento agudo. Viu só como eu sei...
Uma pausa se instaurou em meio ao diálogo...
_ Mas professor, não tem um Y?
_ Ih...  é mesmo, meu filho, esqueci...
_ Viu só como tu não sabe ler...    :-s

Bom recomeço de aula a todos nós...

sábado, 8 de janeiro de 2011

Professor Homenageado - Atualizado.






A formatura acontece em 05 de fevereiro e esta é a primeira homenagem que eu recebo.  Um beijo grande aos meus alunos... Obrigado pelo carinho!

Atualizando... fotos da formatura.